Coluna Viva Mais e Melhor, publicada no jornal O DIA em 27/03/2006 Aposentada autodidata constrói barcos usando apenas uma faca de cozinha ZILÁ de Farias, 69 anos, pinta o barco, feito em uma semana, na calçada em frente à casa onde mora Todos os dias, dona Zilá atrai a atenção de quem passa na calçada em frente à casa onde mora, na Rua Oiticica, bairro de mesmo nome, em Campo Grande. O motivo são os barcos que constrói, de vários tamanhos, usando madeira e tecido e a sua principal ferramenta de trabalho, uma pequena faca de cozinha. Zilá de Farias, 69 anos, conta que nunca fez aulas de arte e que o talento é um dom de Deus, aproveitado e potencializado com muita criatividade. “Faço tudo na calçada porque é mais fresco e fico com mais espaço. Minha vida é essa. Fazer o artesanato e distrair a minha mente”, diz a aposentada, que prepara um barco em uma semana quando trabalha diariamente das 6h às 16h. Além dos barquinhos, seu trabalho mais conhecido e procurado, Zilá, natural de Manaus, Amazônia, faz sandálias, carrancas, cascatas, pinta quadros e ainda é compositora. Encomendas reforçam o orçamento doméstico “Já compus hinos e quando jovem cantava em um coral. Até registrei as minhas músicas. Meu pai tocava clarinete na banda do Exército e órgão na igreja”, conta ela, que, incentivada pelos amigos e vizinhos, foi a cada ano aumentando sua produção, mas nunca pensou muito em vendê-la. “Não tenho jeito para essas coisas. Faço porque gosto”, explica. Zilá, que reforça o orçamento doméstico com encomendas, já vendeu muitas sandálias com a ajuda de uma amiga com tino comercial. Mas o que mais fez na vida foi presentear os amigos com seus trabalhos. “Dou o que vendo e é assim que vou levando a vida”. A aposentada é apaixonada por barcos desde a infância. “Me criei andando de um lado para o outro com meu pai, um sargento do Exército, que viajava muito. Muitas vezes viajávamos de barco e de navio. E em casa, meu irmão fazia barcos de verdade”, explica. Amazonense, veio para o Rio em 1954. Teve oito filhos e “um único homem”. Em 1973 passou a morar na Zona Oeste. Quando um de seus oito filhos morreu, Zilá decidiu se dedicar por completo ao artesanato. A tristeza foi aos poucos sendo deixada de lado. “Graças a Deus, nenhum dos meus filhos virou marginal”, conta ela, que planeja aumentar as encomendas e espera ter seu trabalho reconhecido. “Faço tudo com muita concentração e todo mundo fica impressionado. Principalmente porque uso uma faquinha de cozinha como principal ferramenta. As pessoas ficam curiosas para saber como consigo”, diz. Interessados em conhecer melhor o artesanato de dona Zilá devem ligar para o celular: 9345-2436.